O que é Violência Vicária?
Um crime chocante em Itumbiara, Goiás, trouxe à tona um termo que descreve uma das formas mais cruéis de violência contra a mulher: a violência vicária. O caso envolveu Thales Machado, secretário de Governo da prefeitura local, que atirou contra seus dois filhos, de 8 e 12 anos, matando ambos, e em seguida tirou a própria vida. A violência vicária ocorre quando um agressor, geralmente um homem, machuca ou mata pessoas próximas a uma mulher com o objetivo de puni-la, controlá-la ou atingi-la psicologicamente. Na maioria das vezes, os alvos são os filhos, pois representam o maior vínculo afetivo da vítima.
A Construção da Narrativa de Vítima pelo Agressor
Estela Bezerra, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, explica que, em casos como o de Itumbiara, o agressor frequentemente constrói uma narrativa para se colocar como vítima e culpar a companheira. Thales Machado, antes de cometer os crimes, postou em redes sociais uma carta alegando traição e crise conjugal. “Ele executa os filhos e constrói, antes de morrer, por meio de narrativas, a responsabilização da esposa”, detalha Bezerra. Essa manipulação visa culpar a mulher pela tragédia, uma tática comum em situações de violência de gênero, onde o machismo contribui para que a responsabilidade recaia sobre a vítima.
Violência Vicária é Mais Comum do que se Imagina
A violência vicária, segundo Bezerra, é sistemática e ocorre no dia a dia, variando de atos sutis a execuções explícitas. Ela cita outro caso recente de um servidor da Controladoria-Geral da União (CGU) que agrediu o filho e a ex-companheira. “Atacar o filho, a mãe e até os animais domésticos ou maltratá-los é uma coisa cotidiana, que acontece em situações de violência doméstica”, afirma. A cultura machista e a forte assimetria de gênero no Brasil e no mundo são apontadas como fatores que potencializam essa violência, mantendo mulheres em posições de subalternidade e medo.
O Papel da Sociedade Civil e da Defensoria Pública
O Instituto Maria da Penha, ONG atuante no combate à violência doméstica, confirma que a violência vicária não é uma exceção e que filhos são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem. A entidade ressalta que não se trata de um conflito familiar, mas de uma grave violação de direitos humanos, muitas vezes naturalizada ou invisibilizada. O Brasil já reconheceu oficialmente a violência vicária como violência de gênero, estabelecendo diretrizes para sua prevenção e combate. A Defensoria Pública Estadual de Goiás (DPE-GO) reforça que a responsabilidade pelos atos de violência é sempre de quem comete o crime, e que a mulher, mesmo quando vítima, não tem culpa. A DPE-GO alerta que expor a mulher vítima de violência pode configurar crime e que refletir sobre a culpabilização feminina é essencial para romper ciclos de violência.
Como a Violência Vicária se Manifesta
O Instituto Maria da Penha lista algumas formas comuns de manifestação da violência vicária:
- Ameaças envolvendo os filhos;
- Afastamento forçado da convivência;
- Manipulação emocional;
- Falsas acusações;
- Sequestro ou retenção ilegal de crianças.
Nomear a violência é o primeiro passo para enfrentá-la, e a informação de qualidade é uma forma de proteção. A disseminação desse conhecimento é crucial para proteger vínculos, infâncias e direitos.
Fonte: jovempan.com.br
