Um grito contra o desespero moderno
Em um discurso impactante na Universidade La Sapienza de Roma, o papa Leão XIV dirigiu-se à juventude, alertando sobre a “grande mentira” que, segundo ele, tem levado muitos jovens a quadros de ansiedade e depressão. “Não somos a soma do que temos, nem matéria aleatoriamente reunida em um cosmos mudo. Somos um desejo, não um algoritmo!”, enfatizou o pontífice, criticando um “sistema distorcido que reduz as pessoas a números, aumenta a competitividade e nos abandona a espirais de ansiedade”.
O papa lamentou o “mal-estar espiritual” que afeta muitos estudantes universitários, destacando que a “chantagem das expectativas e a pressão para ter desempenho” intensificam sentimentos de que as “estações difíceis” nunca terminam. A visita de Leão XIV à La Sapienza, uma das maiores e mais prestigiadas universidades da Europa, contrastou com um episódio em 2008, quando uma visita de Bento XVI foi cancelada devido a controvérsias. Desta vez, a recepção foi calorosa, com estudantes aclamando o papa.
Guerra, tecnologia e a “contaminação da razão”
Leão XIV também abordou a realidade sombria de um mundo “distorcido por guerras e por palavras de guerra”, alertando para uma “contaminação da razão que, do nível geopolítico, invade cada relação social”. Ele pediu a correção da “simplificação que cria inimigos”, especialmente no ambiente acadêmico, através do “cuidado com a complexidade e do exercício sábio da memória”.
Em um momento de forte crítica aos gastos militares, o papa questionou o rearmamento que, segundo ele, “aumenta as tensões e a insegurança, empobrece os investimentos em educação e saúde, contradiz a confiança na diplomacia e enriquece elites que não se importam com o bem comum”. Ele citou dados que apontam para um aumento expressivo nos gastos militares globais e europeus em 2025.
O Santo Padre também expressou preocupação com os riscos da inteligência artificial, tanto em contextos militares quanto civis, pedindo vigilância para que seu desenvolvimento não “alivie as decisões humanas de responsabilidade ou piore a tragédia dos conflitos”. O papa mencionou explicitamente as situações na Ucrânia, Gaza, Territórios Palestinos e Líbano como exemplos da “evolução desumana da relação entre guerra e novas tecnologias em uma espiral de aniquilação”.
Um chamado à esperança e à vida
Diante de um cenário global complexo, Leão XIV fez um apelo direto aos jovens: “Sejam um ‘sim’ radical à vida! Sim à vida inocente, sim à vida jovem, sim à vida dos povos que clamam por paz e justiça.” O pontífice também dedicou parte de seu discurso à ecologia, lamentando que a situação ambiental não tenha melhorado significativamente, e encorajou os jovens a “transformar a inquietação em profecia” e a não ceder ao desânimo. Ele ressaltou a crença de que a história “não cai irremediavelmente nas mãos da morte”, mas é guardada por um Deus criador.
Criticando o “paradigma possessivo e consumista”, o papa incentivou os estudantes a buscarem um “horizonte de significado” para além da imediatismo. Ele também destacou o valor do ensino como uma forma de caridade, essencial para “amar a vida humana, valorizar suas possibilidades” e falar “aos corações dos jovens, não apenas ao seu conhecimento”. Estudantes presentes na universidade descreveram o discurso como “encorajador”, “alegre” e “esperançoso”, destacando a importância de se sentirem vistos e de reconhecerem seu papel ativo no próprio crescimento.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br