Declínio de Peso Econômico e Tensões Comerciais
A cúpula do G7, reunida em Évian-les-Bains, na França, inicia em um cenário de incertezas. O grupo, que congrega as sete maiores economias desenvolvidas do mundo (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), vê sua relevância questionada por divergências internas, especialmente entre os Estados Unidos e os demais membros. A eleição de Donald Trump para a presidência americana em 2025 intensificou disputas tarifárias com a Europa, além de tensões com o desejo de anexar a Groenlândia e críticas à Otan e ao Japão por sua participação na guerra contra o Irã.
O colunista Gilles Paris, do Le Monde, comparou a situação atual à cúpula de 2018 no Canadá, quando Trump retirou o apoio dos EUA à declaração final. Naquela ocasião, as disputas giravam em torno de tarifas, mas agora as divergências se estendem a diversas áreas, como comércio internacional e política energética, com Trump priorizando combustíveis fósseis em detrimento de energias renováveis.
Paralisia Funcional e a Busca por Legitimidade
Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, descreve o momento do G7 como uma “paralisia funcional crônica”. Segundo ele, a perda de representatividade econômica global, somada a uma fragmentação interna severa, esvazia o propósito cooperativo do bloco. A cúpula na França evidencia essa dicotomia: as tarifas protecionistas americanas afetam diretamente os aliados, enquanto regulações europeias contra big techs americanas abrem uma guerra comercial e tecnológica.
Para Caichiolo, a recuperação da relevância do G7 passa pela abandono da unilateralidade na governança econômica e pela busca por um diálogo coeso sobre questões econômicas e tecnológicas, com destaque para a Inteligência Artificial. A participação de potências médias como Brasil e Índia, convidadas para a cúpula, é vista como um reflexo dessa necessidade de legitimidade em temas globais onde o Ocidente não decide mais sozinho.
Potências Médias: Complemento ou Contraponto?
O convite a países como Brasil e Índia para participarem da cúpula do G7 levanta a questão sobre seu papel: complementar ou confrontar o bloco. Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, alertou que nações nesse patamar econômico precisam se unir para não serem “engolidas”.
Robert Muggah, fundador do Instituto Igarapé, argumenta que esses países possuem peso suficiente para exigir um papel maior na definição da nova ordem mundial. Swaran Singh, professor da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Délhi, vê o convite como uma adaptação do G7 à sua diminuição de peso econômico global. Em 1975, o G7 detinha 70% do PIB mundial; hoje, essa fatia representa cerca de 43% em dólares correntes e menos de 28% em paridade de poder de compra. A participação na população mundial também caiu de 15% para menos de 10%.
Brics: Um Antagonista em Construção?
Apesar do desejo da China e da Rússia de transformar os Brics em um contraponto ao G7, o bloco emergente enfrenta suas próprias divergências internas. A recente cúpula de ministros das Relações Exteriores na Índia terminou sem uma posição comum sobre a guerra no Irã, evidenciando os conflitos entre seus membros. Gilles Paris considera que, embora a obsolescência do G7 seja inegável, seu desaparecimento é improvável, dada a ausência de um substituto capaz, como comprovado pela impotência dos Brics.
Ricardo Caichiolo conclui que Brasil e Índia funcionam como um “complemento prático” do G7 em pautas globais, mas também como um “contraponto estratégico na governança geopolítica”. Ao liderarem o Sul Global e defenderem a reforma das instituições financeiras internacionais sem aderir cegamente aos alinhamentos ocidentais, esses países buscam despolarizar o cenário internacional e promover seus próprios interesses.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br
