Cenário de Incerteza Nuclear se Instala Globalmente
O mundo amanhece sob uma nova e preocupante nuvem de incerteza nuclear. O último grande tratado de desarmamento em vigor entre Estados Unidos e Rússia, o Start III (ou New Start), expirou nesta quinta-feira (5), sem que um acordo de sucessão fosse selado entre os líderes de ambas as nações. Essa expiração marca o fim de um período de controle de armas nucleares e abre a porta para um cenário de instabilidade, com o temor crescente de uma nova corrida armamentista, não mais bipolar, mas tripolar, envolvendo as três maiores potências militares do planeta: EUA, Rússia e China.
O Que o Start III Limitava e Por Que sua Expiração é Preocupante
Em vigor desde 2010 e renovado em 2021 por mais cinco anos, o Start III tinha como objetivo primordial limitar os arsenais nucleares estratégicos de Moscou e Washington. O acordo estabelecia um teto de 1.550 ogivas nucleares e 700 sistemas de mísseis balísticos para cada país, incluindo aqueles lançados por terra, mar ou ar. A Rússia chegou a propor uma extensão unilateral do acordo por mais um ano, mas a proposta foi ignorada pelo então presidente americano Donald Trump, que insistiu na inclusão da China nas negociações. Pequim, no entanto, rejeita a participação, argumentando que seu arsenal não se equipara ao das outras duas potências.
A Ascensão da China e a Teoria dos Três Escorpiões
A ausência da China no controle nuclear é um ponto central de preocupação. Embora EUA e Rússia detenham a vasta maioria das armas nucleares globais (87%), a rápida expansão do arsenal chinês nas últimas décadas tem sido um alerta para Washington. Estimativas apontam que a China poderá alcançar 1.500 ogivas nucleares em uma década. Especialistas alertam que a entrada da China como terceira grande potência atômica rompe a lógica de estabilidade da Guerra Fria, comparada à de dois escorpiões em uma garrafa. Um sistema tripolar, segundo a “teoria dos três escorpiões”, é mais caótico, onde cada país precisa se defender simultaneamente de dois adversários, elevando o risco de erros de cálculo e escaladas em momentos de crise.
Corridas Armamentistas e Restrições Orçamentárias: Um Equilíbrio Delicado
A expiração do tratado bilateral não implica, necessariamente, o início imediato de uma corrida armamentista desenfreada como na Guerra Fria. Especialistas indicam que isso dependerá das ações futuras. Se uma potência iniciar um aumento expressivo de seu arsenal, um ciclo de ação e reação pode ser desencadeado. No entanto, restrições orçamentárias e outras prioridades geopolíticas podem limitar tal expansão. Dados recentes mostram que, nos últimos 13 anos, a Rússia expandiu seus sistemas nucleares em cerca de 22%, enquanto a China apresentou um crescimento ainda mais acelerado em mísseis balísticos de alcance intermediário (635%). Os EUA, por outro lado, reduziram seu arsenal de mísseis balísticos lançados por submarinos em 17%.
A Rússia e Suas Violações Recentes de Acordos
Desde a assinatura do Start III em 2010, a Rússia tem um histórico de violar, suspender ou abandonar diversos acordos de controle de armas. Em 2022, Moscou suspendeu as atividades de inspeção do New Start, um componente crucial para a transparência. Em 2023, a Rússia suspendeu sua participação no tratado e retirou a ratificação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares. A proposta russa de manter as restrições quantitativas por um ano, sem as inspeções e outras medidas de transparência, levanta dúvidas sobre a real intenção de Moscou em manter os limites de não proliferação nuclear.
Novas Prioridades e a Possível Estabilidade Forçada
Apesar das preocupações, alguns fatores podem mitigar uma escalada armamentista. O cenário geopolítico atual, com esforços para a resolução do conflito na Ucrânia, pode incentivar a manutenção do status quo. Além disso, a situação financeira de Rússia e EUA pode limitar investimentos massivos em novas armas nucleares. A Rússia enfrenta um déficit orçamentário significativo devido à guerra e sanções, enquanto os EUA parecem mais focados em desenvolver defesas antimísseis do que em expandir seus arsenais. A China, apesar de suas atividades militares pouco divulgadas, também pode enfrentar restrições orçamentárias em seu acelerado crescimento militar.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br
