Papa denuncia ‘mal-estar espiritual’ entre estudantes
Em um discurso marcante na Universidade La Sapienza de Roma, o papa Leão XIV alertou nesta quinta-feira sobre a “grande mentira” que, segundo ele, tem adoecido os jovens, gerando ansiedade e depressão. O Pontífice abordou o “mal-estar espiritual” que afeta muitos estudantes universitários, ressaltando que a identidade humana transcende a mera soma de bens ou a aleatoriedade cósmica. “Somos um desejo, não um algoritmo!”, declarou, criticando veementemente um sistema que, em sua visão, “reduz as pessoas a números, aumenta a competitividade e nos abandona a espirais de ansiedade”.
Leão XIV reconheceu que as “estações difíceis” são parte da vida, mas lamentou que a “chantagem das expectativas e a pressão para ter desempenho” intensifiquem a sensação de que esses períodos nunca terminam. A visita do Papa à universidade, a maior da Europa, foi recebida com entusiasmo pelos estudantes, muitos dos quais acompanharam o discurso em telões externos devido à grande afluência.
Críticas ao rearmamento e à contaminação da razão
O Papa também se manifestou contra a “contaminação da razão” que, segundo ele, se propaga do nível geopolítico para as relações sociais. Criticou a simplificação que cria inimizades e defendeu o cuidado com a complexidade e o exercício da memória. Em um forte contraponto ao aumento dos gastos militares, especialmente na Europa, Leão XIV questionou a denominação de “defesa” a um rearmamento que, em vez de aumentar a segurança, eleva tensões, prejudica investimentos em saúde e educação e contradiz a diplomacia. Ele citou dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, que indicam um aumento recorde nos gastos militares globais em 2025.
A inteligência artificial também foi tema de alerta, com o Papa pedindo vigilância para que seu desenvolvimento não diminua a responsabilidade humana ou agrave conflitos. Ele mencionou as situações na Ucrânia, Gaza e outros territórios como exemplos da “evolução desumana da relação entre guerra e novas tecnologias”.
Apelo à vida, à justiça e à ecologia
Diante desse cenário, o Santo Padre fez um apelo direto aos jovens para que sejam um “sim radical à vida”, defendendo a vida inocente, a juventude e os povos que clamam por paz e justiça. Referindo-se à encíclica Laudato Si’ de seu predecessor, papa Francisco, Leão XIV expressou preocupação com a situação ecológica, lamentando que, apesar de esforços, o quadro não parece ter melhorado. Ele encorajou os jovens a “transformar a inquietação em profecia” e a não sucumbir ao desânimo, lembrando-lhes que a história é guardada por um Deus criador de vida.
O Papa também criticou o “paradigma possessivo e consumista” e incentivou os estudantes a buscarem um “horizonte de significado” além da imediatividade. Definiu o ensino como uma forma de caridade, essencial para valorizar a vida humana e suas potencialidades, dialogando com os corações e mentes dos jovens. A visita foi vista por estudantes como um momento de encorajamento e esperança, reforçando a importância do estudo e da centralidade pessoal na construção do futuro.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br