Crise econômica russa ganha novo capítulo com conflito no Oriente Médio
Antes do agravamento da situação no Irã, a economia russa enfrentava um cenário desafiador. A decisão da Índia de suspender a compra de petróleo russo, sob pressão dos Estados Unidos, e os ataques ucranianos à infraestrutura energética da Rússia, que paralisaram cerca de 40% de sua capacidade de exportação, pintavam um quadro sombrio para o regime de Vladimir Putin. No entanto, o conflito no Irã, com o consequente aumento nos preços do petróleo e gás devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, e uma flexibilização parcial das sanções americanas às exportações de energia russas, trouxeram um alívio financeiro inesperado para Moscou.
Putin aposta em guerra prolongada para sustentar cofres russos
A Rússia, que tem colaborado com o Irã através do fornecimento de drones, inteligência militar e ajuda humanitária, parece ter em seus planos a manutenção de um conflito prolongado. O objetivo de Putin é capitalizar a alta nos preços das commodities para garantir uma renda extra e compensar as perdas econômicas. Contudo, especialistas divergem sobre a eficácia dessa estratégia a longo prazo.
Déficit público russo em ascensão: um gargalo persistente
Apesar do fôlego momentâneo proporcionado pela guerra no Irã, um dos maiores desafios econômicos da Rússia nos últimos anos, o déficit público, parece longe de ser resolvido. O déficit orçamentário consolidado do país saltou de 1,7% do PIB para 3,9% em 2025. Sergei Shelin, analista econômico, aponta que, embora a alta do petróleo evite o pior cenário, a queda nas receitas não provenientes de energia e os crescentes gastos militares com a guerra na Ucrânia – que subiram de 3,6% do PIB em 2021 para 7,1% em 2024 – indicam um aumento contínuo do déficit.
Despesas militares e a falta de diversificação econômica: um futuro incerto
Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais, acredita que o alívio para a Rússia gerado pelo conflito no Irã será apenas temporário, prevendo uma resolução em breve para a guerra no Oriente Médio. Mesmo com uma “economia de guerra”, onde os investimentos em defesa podem atenuar perdas em outros setores, a situação das contas russas não é sustentável a longo prazo. Lucena ressalta que a Rússia possui setores com potencial de diversificação, como as indústrias automotiva, de luxo e turismo, mas Putin não demonstra interesse em explorar essas avenidas. A interferência estatal e o foco na dependência energética de outros países são vistos como mecanismos de manutenção do poder, impedindo o desenvolvimento de um setor privado forte e independente, o que poderia diluir o poder político do Kremlin.
Putin descarta cortes de gastos, mas vende ouro e busca doações
Em uma tentativa de reforçar suas finanças, a Rússia vendeu cerca de 15 toneladas métricas de ouro de suas reservas nos dois primeiros meses do ano, a maior quantidade desde 2002. Adicionalmente, um oligarca teria se oferecido para financiar a guerra na Ucrânia, em um cenário onde o Kremlin busca doações para cobrir o crescente déficit público. Apesar das contas em descontrole, Putin, por ora, descarta cortes nos gastos públicos, inclusive os militares, que não sofreriam tesouradas, segundo informações recentes, apesar de cogitações anteriores sobre cortes em despesas “não sensíveis”.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br
