A Revolução da Transmissão Via Satélite
A Copa do Mundo de 1970, realizada no México, não foi apenas um marco esportivo para o Brasil com a conquista do tricampeonato, mas também um divisor de águas na comunicação do país. Pela primeira vez, os brasileiros puderam acompanhar o torneio ao vivo, graças à tecnologia de transmissão via satélite. Cerca de quatro milhões de aparelhos de televisão levaram as emoções dos jogos para os lares, eternizando a memória da seleção em campo e a experiência de assistir a tudo em tempo real.
Bastidores e Patrocínios Inusitados
O caminho para a transmissão televisiva da Copa de 70 foi trilhado por negociações intensas nos bastidores. Inicialmente, o governo militar planejava financiar a exibição por meio da Loteria Esportiva. No entanto, agências de publicidade como McCann Erickson e Thompson intervieram, buscando a participação de anunciantes privados. Em um prazo apertado de 48 horas, a Esso, a Souza Cruz e a Gillette foram as empresas que responderam ao chamado, investindo 4 milhões e 500 mil cruzeiros para garantir sua presença.
O Espaço Publicitário e a Propaganda do Regime
As emissoras detinham os direitos de explorar os 10 minutos antes e depois de cada partida para fins comerciais. Desse tempo, cinco minutos foram destinados à Loteria Esportiva e à Caixa Econômica Federal. O governo utilizou esse espaço para divulgar as instituições e, de forma notória, para exibir filmes que exaltavam o regime militar. Conforme detalhado pela revista Veja na época, os vídeos curtos, de um minuto e de alto bom gosto, promoviam valores como otimismo, respeito e trabalho em equipe, numa clara tentativa de associar a imagem do governo ao sucesso da seleção.
Memórias Sonoras e Visuais da Copa de 70
Resgatar as gravações originais da Copa de 70 tem sido um desafio, pois o sinal vindo do México consistia apenas em áudio e imagem unificados. As emissoras brasileiras formaram um pool, e os narradores, como Fernando Solera, Walter Abrahão, Oduvaldo Cozzi e Geraldo José de Almeida, revezavam-se nas transmissões, frequentemente citando os patrocinadores. Jingles marcantes ecoavam pelos lares: “Passe em um posto Esso e ponha um tigre no seu carro”; “Continental, preferência nacional”; “Platina em uma lâmina? É Plat-Plus, da Gillette”. As propagandas eram surpreendentemente sofisticadas para a época, incluindo animações. A Esso utilizava o famoso tigre como mascote, embalado por um jingle de Wilson Simonal. A Souza Cruz, hoje com sua associação ao esporte impensável, e a Gillette, que além de lâminas promovia desodorantes e canetas, completavam o quadro de anunciantes. As transmissões, levadas ao público pelas emissoras Globo, Tupi, Record e Bandeirantes, culminavam com a icônica vinheta de encerramento na voz de Cid Moreira.
Fonte: jovempan.com.br
