Autoridades Bielorrussas Restringem Atuação de Clérigos Estrangeiros
Nas últimas semanas, a Bielorrússia tem intensificado a pressão sobre a Igreja Católica no país, com a expulsão de diversos clérigos estrangeiros, a maioria de nacionalidade polonesa. As autoridades bielorrussas têm negado a renovação de suas autorizações de residência, forçando o retorno de padres que serviam em paróquias locais há anos, alguns por décadas. Em março e maio deste ano, múltiplos clérigos das Dioceses de Pinsk e Vitebsk, assim como da Arquidiocese de Minsk-Mohilev, foram afetados por essas medidas, incluindo padres com posições de liderança.
Estrutura Restritiva e Falta de Transparência
A Bielorrússia opera um dos sistemas mais restritivos para clérigos estrangeiros na região. A atuação desses religiosos depende da aprovação explícita do Plenipotenciário para Assuntos Religiosos e Étnicos, um órgão estatal chefiado por Aleksandr Rumak. Organizações de direitos humanos criticam Rumak por recusar autorizações sem justificativa e por evitar o diálogo com os clérigos afetados. As autorizações são de curta duração, vinculadas a paróquias específicas e exigem um processo burocrático lento, com pedidos passando por órgãos religiosos nacionais registrados. O clero estrangeiro também deve comprovar proficiência em russo ou bielorrusso e tem restrições para atividades religiosas fora de suas paróquias designadas.
Monitoramento Estatal e Impacto Pastoral
Os serviços de segurança do Estado monitoram de perto sermões, sites e redes sociais de padres estrangeiros. Autoridades em Minsk podem negar ou revogar autorizações sem fornecer razões oficiais. Um exemplo marcante é o do padre polonês Józef Geza, que após 25 anos de ministério, foi forçado a deixar o país em 2022 sem explicação oficial. O arcebispo metropolitano Iosif Staneuski de Minsk-Mohilev alertou para a diminuição constante do número de padres na Bielorrússia, especialmente nas regiões orientais, forçando alguns a viajar longas distâncias para cobrir múltiplas paróquias. Essa escassez de clero estrangeiro, em particular os poloneses, sobrecarrega os recursos pastorais já limitados.
Relações Deterioradas Desde 2020 e Ampliação da Ruptura
As relações entre o Estado bielorrusso e a Igreja Católica se deterioraram significativamente após a reeleição contestada do presidente Alexander Lukashenko em 2020, que gerou protestos em massa. Na época, igrejas católicas serviram de refúgio para manifestantes e ativistas, e clérigos condenaram a violência estatal. Desde então, dezenas de padres enfrentaram ameaças, deportação ou prisão sob acusações que a Igreja e grupos de direitos humanos consideram fabricadas. A situação se agravou com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, facilitada pela Bielorrússia. A hierarquia católica bielorrussa, alinhada ao Vaticano, pediu paz e criticou o aprofundamento do envolvimento do país na guerra, colocando-a em rota de colisão com o governo, próximo ao Kremlin. A comunidade católica bielorrussa também produziu críticos proeminentes de Lukashenko, como o laureado com o Prêmio Nobel da Paz, Ales Bialiatski. Acusações russas de que comunidades católicas bielorrussas são usadas para fomentar agitação, aliadas aos laços históricos com a Polônia, um crítico ferrenho de Lukashenko e do Kremlin, alimentam uma narrativa oficial que vê a Igreja Católica como um instrumento de influência estrangeira, tornando-a um alvo em uma campanha governamental mais ampla contra instituições independentes e a sociedade civil.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br
