Produtora de filme sobre Bolsonaro contrata advogado de Mário Frias para executar programa com a Prefeitura de SP; Polícia investiga desvios
Instituto Conhecer Brasil, ligado à produção de ‘Dark Horse’, gastou R$ 341,9 mil com escritório que representou o deputado federal em ações judiciais. Suspeita é de confusão patrimonial e desvio de verba pública para custear longa.
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização não governamental (ONG) presidida por Karina da Gama e responsável pela produção do filme ‘Dark Horse’, inspirado na vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, contratou um escritório de advocacia que representou o deputado federal Mário Frias (PL-SP) em quatro ações judiciais. O escritório foi contratado para atuar na execução de um programa com a Prefeitura de São Paulo, voltado à manutenção de pontos públicos de acesso à internet Wi-Fi em comunidades periféricas da capital paulista. O programa é alvo de investigação da Polícia Civil por suspeita de fraude e desvio de recursos públicos, o que levou a uma operação de busca e apreensão na última segunda-feira.
Segundo informações obtidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, o escritório Aguilera Martinez recebeu R$ 341,9 mil da ONG sem detalhamento dos serviços prestados. A contratação foi inicialmente revelada pelo portal UOL. O filme ‘Dark Horse’ tem roteiro assinado por Mário Frias, e a Polícia Civil de São Paulo suspeita de uma confusão patrimonial entre o ICB e a produtora Go Up Entertainment, também de Karina da Gama. A investigação aponta para a possibilidade de parte do dinheiro recebido pelo contrato com a prefeitura ter sido desviado para custear a produção do filme.
Suspeitas de desvio e confusão patrimonial
Em junho de 2024, o ICB firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de 5.000 pontos de Wi-Fi livre em comunidades de baixa renda. Um aditivo posterior aumentou o valor para R$ 157,1 milhões. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2ª DICCA, escreveu em um ofício que há “consistentes suspeitas de confusão patrimonial [entre o instituto e a produtora] e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”.
O delegado requisitou ao Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) a análise das movimentações financeiras de Karina Ferreira da Gama, do ICB e da produtora Go Up Entertainment Ltda, para verificar o caminho do dinheiro. A suspeita principal é de desvio de dinheiro público e fraude em licitação.
Pagamentos a advogados de Mário Frias e uso de emendas parlamentares
Entre julho de 2024 e julho de 2025, o ICB realizou 12 pagamentos ao escritório Aguilera Martinez, totalizando R$ 341,9 mil, sob a descrição genérica de “prestação de serviços jurídicos”. No mesmo período, o escritório representou Mário Frias em quatro ações judiciais: três na Justiça Eleitoral e uma na Justiça Estadual de São Paulo. O encerramento de um desses processos ocorreu em junho de 2024, mesmo mês em que o ICB assinou o convênio com a prefeitura.
Além disso, a produtora de ‘Dark Horse’ contratou outro advogado de Mário Frias, Fabio Lago Meirelles, com dinheiro proveniente de emendas do próprio parlamentar. Frias destinou duas emendas de R$ 1 milhão cada para projetos do ICB. O escritório de Meirelles recebeu R$ 30 mil para serviços de contabilidade e R$ 50 mil para serviços jurídicos de um dos projetos, o “Jovem Empreendedor”. Fabio Lago Meirelles já defendeu Mário Frias em ao menos nove processos.
Contratação de dirigente e repúdio da Prefeitura
A investigação também aponta que a ONG utilizou emenda parlamentar para contratar Marcelo Machado, dirigente da Academia Nacional de Cultura (outra entidade presidida por Karina da Gama), para prestar serviços de “divulgação” ao projeto “Jovem Empreendedor”. A lei proíbe a contratação por ONGs de empresas de seus próprios dirigentes devido a conflito de interesses. Machado é dono da empresa MM7, que recebeu R$ 50 mil.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo negou irregularidades, classificando as suspeitas como “ilação irresponsável” e “sem fundamento”. A gestão municipal afirmou que o contrato com o ICB seguiu “rigorosamente os princípios de legalidade, transparência e economicidade” e que o instituto foi selecionado por meio de chamamento público aberto a todas as entidades interessadas.
Fonte: jovempan.com.br
