O que é o Azul da Prússia e sua inesperada atuação no desastre de Goiânia
Em 1987, a cidade de Goiânia foi palco do maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear da história. A exposição acidental ao césio-137, um isótopo radioativo altamente perigoso, deixou centenas de vítimas e marcou profundamente o país. Em meio ao caos e à busca por soluções, um antigo pigmento, o Azul da Prússia, emergiu como um inesperado aliado no tratamento dos contaminados.
Uma descoberta acidental com potencial terapêutico
A história do Azul da Prússia remonta ao início do século XVIII, na Alemanha. Alquimistas e coloristas buscavam o lendário “elixir da vida”. Johann Conrad Dippel, em seus experimentos, produziu o “azeite de Dippel”. Paralelamente, o colorista Johann Jacob Diesbach, ao tentar criar uma tinta vermelha e precisando de carbonato de potássio, acabou utilizando o composto contaminado de Dippel. O resultado foi um pigmento azul vibrante, sem que fosse essa a intenção inicial.
Na época, a dificuldade em obter pigmentos azuis naturais tornou essa nova cor um sucesso. O composto ganhou o nome “da Prússia” ao se tornar a cor oficial do exército prussiano em 1709. Sua beleza e raridade o levaram a ser utilizado em obras de arte mundialmente famosas, como “A Noite Estrelada” de Van Gogh.
O pigmento que se transforma em medicamento: Radiogardase
No contexto científico, o Azul da Prússia é conhecido como ferrocianeto férrico. No entanto, para fins terapêuticos, especialmente no tratamento da contaminação por césio-137, sua fórmula foi adaptada com adição de potássio, passando a ser chamado de Radiogardase. Sua ação, comparada a um ímã, ocorre através de um fenômeno chamado adsorção. O Radiogardase se liga ao césio-137 na superfície do intestino, impedindo que o corpo o reabsorva e o reintroduza na corrente sanguínea.
“Nosso organismo fica tentando eliminar o césio-137 pelo intestino, mas acaba reabsorvendo e circulando por muito tempo. Com o radiogardase, ele se liga e é eliminado mais facilmente nas fezes”, explica Paola da Costa Rosa, especialista em radioproteção.
A aplicação no desastre de Goiânia e seu legado
A ideia de usar o Azul da Prússia para descontaminação radioativa surgiu ainda na década de 1940, durante o Projeto Manhattan, nos Estados Unidos, onde pesquisadores buscavam substâncias que pudessem lidar com os subprodutos radioativos da fissão nuclear. Descobriu-se que o Azul da Prússia tinha afinidade com o césio. Contudo, foi em Goiânia que essa teoria se tornou uma aplicação prática em larga escala.
Apesar do receio inicial sobre possíveis interferências cardíacas devido ao potássio na fórmula, o tratamento com Radiogardase se mostrou seguro e eficaz. A atuação dos profissionais de saúde brasileiros, adaptando e aplicando o que tinham à disposição, foi reconhecida internacionalmente. O Radiogardase se tornou parte do protocolo mundial para contaminações por césio e tálio, e o Brasil, através da tragédia, contribuiu para avanços na medicina de emergências radiológicas.
É importante ressaltar que o Radiogardase não é um radioprotetor; ele auxilia na eliminação mais rápida da contaminação já existente no corpo, não prevenindo seus efeitos. Atualmente, a substância é produzida sob demanda e não está disponível em farmácias comuns.
Fonte: guiadoestudante.abril.com.br
