A Modista Abolicionista
Enquanto nomes como Joaquim Nabuco e Castro Alves dominam as narrativas sobre o abolicionismo no Brasil, a atuação de mulheres como Leonor Porto muitas vezes permanece à margem. Porto, uma renomada modista do Recife (PE) no século XIX, utilizou sua influência e trabalho para arrecadar fundos, organizar eventos e pressionar a elite em prol da libertação de pessoas escravizadas. Ela não era apenas uma costureira de destaque, mas também a presidente de uma das mais importantes associações abolicionistas femininas do país: a Sociedade Ave Libertas.
O Legado da Sociedade Ave Libertas
Fundada em 20 de abril de 1884, pouco após a abolição da escravatura no Ceará, a Ave Libertas (que significa “Salve, Liberdade” em latim) tornou-se um símbolo de resistência e ação feminina. Composta por mulheres da elite recifense, a sociedade adotou uma estratégia legal e criativa para angariar fundos. Através de bazares, quermesses, festivais, saraus e espetáculos, elas arrecadavam dinheiro para comprar cartas de alforria, documento que concedia a liberdade formal a pessoas escravizadas. Além disso, a associação oferecia refúgio a escravizados fugitivos e custeava suas viagens para regiões onde poderiam ser livres, como o Ceará.
Para Além da Compra de Alforrias
A atuação da Ave Libertas ia além dos eventos beneficentes. Em 1885, a sociedade lançou seu próprio periódico, o jornal Ave Libertas, com Leonor Porto em destaque como diretora. A publicação servia tanto para divulgar as ações da entidade quanto para disseminar argumentos abolicionistas e mobilizar a sociedade. No ano seguinte, o jornal Vinte e Cinco de Março reforçou esse chamado, reunindo textos, poesias e manifestos de militantes. Registros indicam que, até 1885, a associação conseguiu a libertação de cerca de 200 pessoas escravizadas.
Um Legado Pós-Abolição
Mesmo após a promulgação da Lei Áurea em 1888, Leonor Porto e suas companheiras não cessaram suas atividades. A Ave Libertas passou a focar no período do “pós-liberdade”, desenvolvendo programas de alfabetização e cursos de trabalhos manuais para ex-escravizados. O objetivo era facilitar a inserção dessa população no mercado de trabalho e combater a exclusão social. Leonor Porto faleceu em 1906, no Rio de Janeiro, mas seu legado continuou através de suas filhas, Adelaide e Albertina, que também foram sócias ativas da Ave Libertas, mantendo viva a luta por igualdade e dignidade humana.
Fonte: guiadoestudante.abril.com.br
