BRICS em xeque: Guerra no Oriente Médio revela falta de coesão e ação
A escalada do conflito no Oriente Médio, com ataques do Irã a Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, tem jogado luz sobre a fragilidade do bloco diplomático dos BRICS. Membros do grupo, que recentemente se expandiu para incluir Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, encontram-se em lados opostos ou em silêncio ensurdecedor diante da crise. Essa falta de posicionamento conjunto levanta sérias dúvidas sobre a estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem apostado no fortalecimento do bloco como forma de ampliar a relevância internacional do Brasil e projetar liderança no chamado “Sul Global”.
Líderes do BRICS evitam mencionar o bloco como mediador
Na recente visita do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa a Brasília, ambos os líderes expressaram preocupação com a situação no Oriente Médio e pediram por paz e diálogo. No entanto, em declarações individuais e no comunicado conjunto, o BRICS não foi mencionado como um fórum de articulação diplomática para lidar com o conflito. Apenas no contexto econômico e financeiro, como a busca por reduzir a dependência do dólar, o grupo foi citado. Essa omissão reforça a percepção de que o BRICS funciona mais como uma plataforma de contestação econômica e política aos Estados Unidos do que como um mecanismo estruturado de mediação diplomática.
Interesses divergentes e assimetria de poder minam a unidade do BRICS
Analistas apontam que a ausência de uma posição conjunta do BRICS diante da crise no Oriente Médio não é surpreendente. O bloco reúne países com interesses estratégicos divergentes e um baixo grau de institucionalização e coordenação política. A expansão recente, que incluiu nações com rivalidades regionais significativas, como Irã e Arábia Saudita, intensificou essas divergências. Além disso, a grande assimetria de poder entre os membros, com a China e a Rússia exercendo influência desproporcional, limita a capacidade de países como Brasil, Índia e África do Sul de influenciar decisões conjuntas.
BRICS: Mais um espaço para “photo opportunities” do que para ação geopolítica
A falta de instrumentos institucionais e estratégicos para agir como ator geopolítico é um ponto central na crítica ao BRICS. O grupo, segundo especialistas, carece de mecanismos eficazes para mediar conflitos ou impor soluções. A presença de regimes autoritários entre seus membros também contribui para a desconfiança mútua e dificulta a construção de posições comuns. A análise prevalecente é que o BRICS se tornou um espaço de sinalização política e de produção de capital para projeção internacional, um local para “photo opportunities”, como ironicamente resume um diplomata, mas com pouca capacidade de entrega real em questões de segurança e diplomacia internacional.
Brasil arrisca investir capital diplomático em um projeto com baixa influência
A aposta do governo Lula no fortalecimento do BRICS como eixo de projeção internacional do Brasil, segundo analistas, pode ser um investimento arriscado. Diante das limitações estruturais e da falta de coesão, o país corre o risco de dedicar capital diplomático a um projeto com baixa capacidade real de influência geopolítica. A divergência interna, inclusive sobre a proposta de uma moeda alternativa ao dólar, sugere um momento de desorganização estratégica no bloco, que, na prática, tem visto cada membro seguir seu próprio caminho em vez de uma ação conjunta coordenada.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br
