Fragmentação Interna Dificulta a Coesão do Bloco
A ambição dos Brics de se consolidarem como um contraponto ao G7, o grupo das economias mais ricas do mundo, enfrenta sérios obstáculos internos. Impulsionado por Rússia e China, o bloco expandiu-se significativamente em 2024 com a adesão de Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Irã, além da prevista entrada da Indonésia em 2025. No entanto, divergências já existentes, como as tensões fronteiriças entre China e Índia, foram acentuadas, comprometendo a unidade do grupo.
Tensões no Oriente Médio e na África Exacerbam Divergências
A recente cúpula de chanceleres dos Brics em Nova Délhi evidenciou a dificuldade do bloco em adotar posições comuns. O Irã solicitou uma condenação aos Estados Unidos e Israel pela guerra em andamento, mas um membro do bloco, identificado como Emirados Árabes Unidos devido à sua relação com Israel e os EUA, bloqueou a declaração conjunta. Os Emirados Árabes, por sua vez, acusaram o Irã de danos e teriam até realizado operações militares contra o país persa. Paralelamente, Egito e Etiópia, ambos novatos nos Brics, protagonizam uma disputa acirrada pela gestão das águas do rio Nilo, com o Egito temendo por sua segurança hídrica devido à construção de uma grande barragem etíope. A recente assinatura de um acordo de cooperação marítima entre Egito e Eritreia, com o objetivo de controlar a segurança do Mar Vermelho, foi vista como uma clara provocação à Etiópia, que busca acesso ao mar.
Interesses Nacionais Prevalecem Sobre a Solidariedade do Bloco
Especialistas apontam que a expansão dos Brics, embora tenha aumentado seu peso econômico e geopolítico, também elevou a heterogeneidade de interesses. A necessidade de consenso em um bloco sem aliança militar ou política formal torna a adoção de posições conjuntas em temas sensíveis um desafio. “O principal problema do bloco é simples: opor-se à hegemonia ocidental é mais fácil do que construir uma alternativa coerente. Queixas compartilhadas não geram automaticamente uma estratégia compartilhada”, analisa Mir Mostafizur Rahaman, colunista do Financial Express. A prevalência dos interesses nacionais sobre a solidariedade do bloco impede a formação de uma agenda coletiva coerente, o que pode diminuir a influência dos Brics no cenário global.
Capacidade de Antagonismo ao G7 é Questionada
Apesar das projeções de Vladimir Putin sobre o crescimento econômico dos Brics superando o G7, analistas questionam a capacidade do bloco de se tornar um antagonista direto. Cleiton Vinícius Pegoraro de Araújo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, duvida que a Rússia possua o poder necessário para transformar os Brics nesse sentido. Murilo Borsio Bataglia, pró-reitor de internacionalização da Estácio Brasília, complementa que as divergências expõem os desafios de um bloco cada vez mais diverso, cujos interesses conflitantes reduzem sua capacidade de atuação política coordenada. Assim, os Brics tendem a atuar mais como um polo alternativo de influência global do que como um substituto direto do G7.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br
