Governo Americano Amplia Participação em Empresas Estratégicas
Em uma mudança de política notável, o governo dos Estados Unidos tem aumentado sua participação direta como acionista em empresas consideradas estratégicas. Essa estratégia, impulsionada pela administração Trump e com potencial de se consolidar a partir de 2025, já demonstra reflexos significativos, inclusive no Brasil. Relatórios recentes indicam que, desde o início de 2023, os EUA anunciaram investimentos de aproximadamente US$ 26,7 bilhões em cerca de 30 acordos que preveem participação no capital de empresas. Essa iniciativa expande o leque de ferramentas governamentais, que tradicionalmente se concentrava em subsídios e incentivos fiscais.
Ações Concretas e o Caso Brasileiro da Serra Verde
Diversos departamentos do governo americano, como o de Comércio, a Development Finance Corporation (banco de desenvolvimento dos EUA), o Departamento de Guerra e o Departamento de Energia, têm liderado esses acordes. Um exemplo proeminente com impacto direto no Brasil é a aquisição da Serra Verde, única produtora de terras raras em larga escala do país, pela empresa americana USA Rare Earth. A USA Rare Earth, que agora tem uma participação de 10% do governo dos EUA, comprou a mineradora goiana por US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde é crucial para a redução da dependência global da China no fornecimento de terras raras pesadas, com projeção de responder por mais da metade da oferta mundial fora da Ásia até 2027.
Estratégia em Meio à Rivalidade com a China
Especialistas apontam que essa política está intrinsecamente ligada à rivalidade geopolítica e econômica com a China. A China detém cerca de 90% do processamento global de terras raras e já utilizou esse domínio como ferramenta de pressão. A estratégia americana busca garantir o acesso a minerais críticos e componentes essenciais para setores como defesa, inteligência artificial e semicondutores, reduzindo vulnerabilidades nas cadeias de suprimentos. Além de participações acionárias diretas, como na Intel (9,9%) e na USA Rare Earth, o governo americano também obtém receita através de acordos de compartilhamento de vendas de chips com empresas como Nvidia e AMD, em troca de permissões de exportação para a China.
Vantagens, Riscos e Dilemas da Intervenção Estatal
A política de participação acionária do governo dos EUA oferece potenciais vantagens, como o fortalecimento da segurança nacional, o fornecimento de capital e liquidez para empresas, a sinalização de confiança ao mercado e a manutenção da competitividade global. Contudo, o think tank CSIS também alerta para desvantagens significativas, incluindo o risco de politização do setor privado, clientelismo e a incerteza sobre o sucesso a longo prazo. Surgem dilemas importantes, como a possibilidade de decisões empresariais serem influenciadas por objetivos de políticas públicas em detrimento dos interesses financeiros da empresa, e conflitos entre o papel do governo como investidor e regulador. Um caso emblemático foi a aparente contradição na postura de Donald Trump em relação ao CEO da Intel, Lip-Bu Tan, criticado por ligações com empresas chinesas e, poucas semanas depois, tornando o governo americano um acionista relevante da mesma empresa.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br
